domingo, 30 de agosto de 2009

Fim de semana esportivo

Este fim de semana foi bastante intenso em termos esportivos aqui na Espanha. A estrela principal foi o início da Liga Espanhola de futebol, a mais esperada da história. Mas o fim de semana não foi só de futebol. Fernando "Lloronso", como já está sendo chamado por aqui, decepcionou mais uma vez e abandonou quando chegou a estar em 3º. É engraçado ver que, apesar de ser uma unanimidade no passado recente por seus títulos e vitórias, atualmente há uma visível divisão entre os torcedores. Há os que culpam exclusivamente equipe e carro e acham um desrespeito criticar o campeão em oposição aos que pensam que ele sempre acha uma desculpa para suas performances abaixo do esperado e seu ego é demasiado grande para trabalhar em equipe. A chuva, a porca, o parafuso, a sujeira na pista, o mecânico...ó vida, ó céus, ó azar...

Será que ele é azarado mesmo? Bom, os boatos são fortes de que ano que vem ele estará na Ferrari. Quem sabe aí poderemos ter a prova de que se com carro bom ele é capaz de voltar a vencer...


Voltando ao futebol, alguns comentaristas exageram(?) que este será o melhor campeonato de todos os tempos de todo o mundo. Se analisamos as cifras das contratações dos clubes de primeira linha, não é mais que obrigação. Se em 2008 as equipes inglesas, subsidiadas por empresas árabes e americanas, lideraram o ranking de investimentos, em 2009 foi a vez dos espanhóis. Além de gastar mais de 350 milhões de euros em contratações, 6 dos 10 jogadores melhores pagos estão aqui. É verdade que tais cifras estão muito concentradas em Real Madrid e Barcelona e os outros clubes preferiram trocar jogadores no mercado interno. O jornal "El Economista" traz uma matéria interessante sobre estes números. Para os próximos anos, a gastança milionária (e as vezes irresponsável) pode estar com os dias contados: a Liga está estudando uma proposta para que as contratações estejam de acordo com as entradas.

Apesar de o Real Madrid ser o clube que gastou mais, quem continua dando as cartas é o Barça, que na sexta conquistou seu 5º título (Champions, Liga Espanhola, Copa del Rey, Supercopa espanhola e européia). Tanto que seus torcedores deitam e rolam, inclusive no YouTube (muito bom).

E ainda hoje, às 21h30, a seleção vice campeã olímpica de basquete masculino inicia sua luta rumo ao título europeu, contra Israel.

sábado, 29 de agosto de 2009

Brotes verdes

Se muitas dúvidas pairam sobre a economia mundial, a Espanha certamente não é uma exceção. Pelo contrário. Desemprego nas alturas (atualmente em 17% e podendo chegar facilmente a 20%), problemas de liquidez e solvencia nas cajas, 1 milhão de moradias (prontas ou em construção) sem muita perspectiva de venda, lentidão parlamentar para aprovar reformas necessárias são alguns dos obstáculos que os espanhóis estão enfrentando atualmente.

Com este cenário é difícil prever coisas boas para o curto e médio prazo. Mesmo assim, há quem pensa que os brotes verdes são um claro indicativo de que tudo começará a ir bem. Os jornais e programas de televisão (especializados ou não) ajudam enormemente para que essa visão se consolide. A bolsa espanhola (mais especificamente o índice bursátil Ibex35) tem quebrado diversas barreiras "psicológicas" nos últimos dias, o que também contribui para o otimismo descontrolado.

Outro dia aconteceu uma coisa interessante. No elevador encontrei um conhecido e mais 2 ou 3 amigos dele que desciam para almoçar. Ele perguntou a todos quando a Espanha sairia da crise, e todos, exceto eu, responderam em uníssono: a meados de 2010. Eu fiquei quieto. Não tenho a menor idéia, não está nada claro. Acho que as pessoas respondem com tanta convicção porque é o que ouvem todos os dias na televisão e também porque pensam que por trabalharem no setor financeiro devem ter uma visão definitiva e clara destes assuntos.

A pergunta não é bem "QUANDO", mas "COMO". Se injetar bilhões de euros na economia principalmente sob a forma de subsídios for a solução, a esperança é grande (é verdade que também se criou um fundo para reorganização das cajas de ahorro que pode chegar a 100 bilhões e que em princípio pareceu uma medida acertada).

Mas, e depois? Ficarão viciados em subsídios? Como fazer com que a economia seja mais competitiva? E que seja menos custosa e mais dinâmica no que se refere a criação de empresas e de empregos. E que reduza o peso em construção e turismo. Como evitar quebradeiras generalizadas no setor de construção que tem um estoque de mais ou menos 1 milhão de imóveis? E o endividamento do Estado? E o monte de imigrantes desempregados do setor de construção? Como evitar que as cajas quebrem e que não sejam apenas instrumentos de política local das comunidades autonomas? Enfim, a lista de "COMO?" é grande. E a lista de respostas é praticamente nula.

O meu grande ponto é: as coisas estão muito incertas para afirmar com convicção que no 2o semestre de 2010 a Espanha voltará a crescer a níveis aceitáveis. É impossível? Claro que não. Mas ainda há muita lição de casa pra ser feita.

Para uma visão mais aprofundada e bem argumentada em relação a este assunto, recomendo a leitura do post sobre a situação econômica atual da Espanha no Drunkeynesian.

De resto é torcer pra que tudo dê certo!

miércoles, 26 de agosto de 2009

Rapidinhas...

Pá e bola...

1) Alguém consegue fazer melhor cara de doido varrido que o Jack Nicholson? Assisti ontem a "The Shinning"... até então pensava que ele não conseguiria superar "One flew over the cuco's nest" (em portugês, Um estranho no ninho)... mas estava claramente enganado!

2) num post recente falei sobre o Miss Universo e a habilidade da brasileira falando inglês... nunca é demais recordar a onipresente (no YouTube) Miss South Carolina

3) O site 20minutos.es está fazendo uma pesquisa para saber quem deveria ser o parceiro de Benzema no ataque do Real. Surprendemente, Raúl não está ganhando! Está atrás de Granero (32%) e Robben (25% - o homem que mais perde gols feitos no mundo, apesar de ser um bom jogador), com 24%

4) É futebol ou karatê?

5) Desemprego? Aqui?



Fonte: Ministerio da Fazenda da Espanha

martes, 25 de agosto de 2009

Ainda sobre línguas, restrições...

Ainda sobre línguas, restrições e direitos: dia 1 de setembro entra em vigor na Eslováquia uma lei que obriga os húngaros (representam mais ou menos 10% da população) a falar eslovaco em público. Quem desobedece-la será obrigado a pagar uma multa que pode chegar a €5000. Justificativa: no sul do país, região na qual algumas cidades tem maioria húngara, os eslovacos estavam sendo pressionados a aprender húngaro (magyar, uma língua incompreensível). Além disso, respondendo às críticas dos políticos húngaros, o governo eslovaco disse que na época do império Austro-Hungaro os Habsburgo haviam feito o mesmo (mas em direção contrária, claro).

Imaginem como teríamos um "mundo melhor" se todos resolvessem cobrar as gerações atuais por problemas históricos...

Viajando até a América do Sul, não chega a surprender, mas em 2008 o "gênio" Evo Morales teve uma iniciativa digna dos mandatários populistas de esquerda que transbordam na América do Sul: visando "descolonizar" a Bolívia, criou as 3 primeiras universidades indígenas do país, "rebaixando" o espanhol ao mesmo nível do inglês, ou seja, de língua estrangeira. Nestas universidades as aulas serão em aimara, quechua e guaraní. Muito "inteligente" criar diferenças entre os habitantes de um mesmo país. Facilita a comunicação e incentiva o sentido de nação, fazendo com que todos remem para o mesmo lado...

lunes, 24 de agosto de 2009

"Cerrado por vacaciones" y "Disculpen las molestias"



Agosto!!! Que beleza!!! Verão no auge, calor, piscinas abertas e... obras e cidade vazia. ¿Qué pasa?

Este período do ano é certamente bastante singular na cidade de Madrid. Acostumada com o ritmo acelerado da capital de negócios da Espanha e com a invasão de turistas durante o ano todo, o mês de Agosto é um oásis de tranquilidade, exceto pelas obras. É algo inacreditável para quem vem de uma cidade como São Paulo. Por ali, no máximo por uns poucos dias de feriado a cidade fica vazia, mas por aqui o fenômeno começa já em Julho e se arrasta durante todo o mês de Agosto.

É "mania" nacional tirar férias (no mínimo por 2 semanas) neste mês. Sim, todos ao mesmo tempo. No trabalho, ficam no máximo 2 pessoas por departamento, com a vida mais que tranquila, já que não ocorrem reuniões, conferences, nada. Afinal, reunir-se com quem? Experimente enviar um email para uma lista de pessoas e verifique a % de retornos "Out of Office".

Nestas verdadeiras férias coletivas, há de se tomar cuidado pois muitos estabelecimentos privados e públicos tem seu horário de funcionamento reduzido. Muitas lojas e até mesmo restaurantes fecham durante o mês inteiro, com crise ou sem crise, exibindo a famosa plaquinha "Cerrado por vacaciones" na porta. Normalmente as grandes lojas e redes não fecham, mas dessa vez vi até um Starbucks fechado por férias.
Contrastando com esse cenário de tranquilidade, Agosto é quando se aproveita para realizar obras. Normalmente vemos vários trechos do metrô completamente fechados, para melhoria ou ampliação das instalações (é verdade que os trechos interrompidos são atendidos, gratuitamente, por linhas de ônibus especiais). Muitos restaurantes e lojas também aproveitam para reformas seus ambientes.

Neste ano em particular as obras na rua se multiplicaram pois o governo (municipal, estadual e federal) tem no gasto público em obras um dos pilares do seu plano de recuperação econômica e de geração de emprego. Em praticamente todos os bairros vemos ruas completamente quebradas, com operários trabalhando na recuperação de galerias de esgoto ou do asfalto. Desta forma, a placa "Disculpen las molestias" se tornou mais comum que placa de trânsito.

Por último, mas não menos importante está o calor. Os picos de 40 graus de temperatura no meio da tarde sem ter um lugar pra se refrescar cria um ambiente quase insuportável, se não fosse pelo ar seco por excelência, que facilita a adaptação ao clima.

Então, vale a pena vir pra Madrid em Agosto? Eu diria que, apesar dos preços de hotéis bastante razoáveis (não tem demanda pois todos vão pra praia), não é a melhor época do ano. Vários monumentos símbolo da cidade podem estar em restauração, além das ruas e bairros mais famosos estarem cheios de tapumes, cones etc. sinalizando obras interminadas. De quebra certamente você não vai poder aproveitar ao máximo da agenda cultural da cidade, que neste mês é consideravelmente reduzida. Vale a pena pagar mais e ir para as praias do sul se refrescar e cair na balada. Visite Madrid na primavera, quando a cidade tem um encanto especial...

domingo, 23 de agosto de 2009

Miss Universo 2009

Apesar de não ter a ver com a Espanha (aliás, contrariando os prognósticos a Miss Espanha fala inglês muito bem), vale o comentário. Alguma coisa está muito errada: ou em seu vídeo a Miss Brasil estava muito nervosa ou a matéria do Yahoo! não faz a menor idéia do que diz:

"Nascida em Natal, Larissa Costa de Oliveira fala português e inglês e, além de ser modelo, trabalha para a Secretaria de Educação da capital do Rio Grande do Norte."

Vendo o vídeo postado no
YouTube há umas semanas atrás, a conta não fecha. Nem absolutamente, nem comparativamente: é só dar uma olhada nos vídeos das outras misses (especialmente a da Colômbia). Pode ser até que ela seja muito inteligente, desfile bem e faça boas ações, mas definitivamente o inglês não parece ser o seu forte.

Apesar disso, nossa Miss é uma das favoritas ao "título" a ser definido hoje nas Bahamas. Aguenta coração!!


sábado, 22 de agosto de 2009

Falta de foco...

O Brasil não é o único que tem o privilégio de ter uma classe política que frequentemente perde o foco dos assuntos mais importantes da nação. Por aqui é igual, as vezes pior. Uma das manias mais irritantes que existem é situação e oposição exigirem que membros do partido oposto compareçam ao Congresso todas vezes que acontece algo errado.

A última foi protagonizada pelo PP (Partido Popular, de oposição), solicitando que o ministro de Fomento - do PSOE (partido de situação) - fosse ao Congresso explicar o apagão de 1 hora no terminal 4 do aeroporto de Barajas. OK, é grave que isso tenha acontecido e as devidas investigações devem ser levadas a cabo. Mas qual o objetivo de levar o cara a depor no Congresso? Não se tem confiança de que as instituições fazem seu trabalho imparcialmente e corretamente? Não creio que seja isso. Creio que o motivo seja montar o circo, expor o outro partido ao ridículo, colocando alguém para tomar pancada numa roda viva sem fundamento.

Frequentemente Zapatero (PSOE) e Rajoy (PP) se "enfrentam" no Congresso, com o suposto objetivo de discutir os problemas da nação. Não saem mais que acusações de incompetência para ambos os lados e os problemas centrais passam longe de serem discutidos em profundidade. Parecem dois cancioneiros nordestinos tentando esculachar um ao outro, provacando risos de escárnio da platéia. Num dos últimos encontros Zapatero disse, em pleno Congresso e em rede nacional, que Rajoy era bom... bom de perder eleições. Isso lembrou muito nosso querido presidente Lula (na época então candidato): "o candidato Maluf é muito competente porque ele compete, compete e nunca ganha". Pode até ser engraçado, se fosse um humorista, não de um dos políticos mais importantes do País.

Num país de primeiro mundo que necessita urgentemente de reformas que dependem de políticos é triste e "escalofriante" (como dizem por aqui) que isso aconteça com a frequência que acontece.

viernes, 21 de agosto de 2009

¿Banco = Imobiliária?

Deste lado do Atlântico um fenômeno interessante ocorre desde meados de 2008 no mercado financeiro espanhol. Com o estouro da bolha imobiliária e a crescente falta de liquidez no mercado, muitas construtoras ficaram com o mico na mão, não conseguindo vender empreendimientos novinhos em folha, por total falta de compradores. Se as construtoras não vendem, não tem como pagar os bilionários empréstimos que contraíram junto aos bancos (e "cajas de ahorro") para financiar as obras. Os bancos, por sua vez, para que não apresentem taxas de morosidade inflacionadas e não ter que reconhecer perdas astronômicas, tomam o imóvel e tentam eles mesmo revendê-los com desconto. O mesmo acontece quando alguém não consegue pagar sua hipoteca. Nesse caso, o comprador inicial do imóvel não tem lá muitos incentivos para pagar uma hipoteca baseada em um valor muito superior ao valor de mercado atual do imóvel. Isso faz com que a carteira imobiliária dos bancos e "cajas de ahorro" destes imóveis "adquiridos" (atualmente em 15,3 bilhões de euros) sejam comparáveis a das maiores construtoras do país.

Ainda que os descontos cheguem a 30% em alguns casos, o estoque de imóveis na carteira dos bancos não pára de aumentar desde inícios de 2009 (é verdade que Julho apresentou retração), basicamente por 3 motivos: a renda disponível diminuiu, o medo do desemprego (que impediria o comprador de continuar pagando a hipoteca) é enorme e todos esperam que os valores de imóveis caiam ainda mais. Também é verdade que alguns estão conseguindo vender muitos dos imóveis tomados (como o Santander, que já vendeu mais de 50%), mas não se sabe se a tendência é de que nos próximos meses o ritmo de "aquisição" dos imóveis provenientes de dívidas não pagas se reduza.

Como se diz por aqui, "es la pescadilla que se muerde la cola".

jueves, 20 de agosto de 2009

Caçadores de mitos - O espanhol não sabe falar inglês

Antes de começar a série "Caçadores de Mitos" (claramente plagiando o programa de televisão), quero deixar uma coisa clara: odeio generalizações. Do tipo: o brasileiro é... ou, o espanhol é... tudo depende... depende da região, da idade, do momento histórico... de um monte de coisas... ainda mais se forem feitas baseada em análises superficiais e comparando "laranja com maçã".
Claro que há características que são mais frequentes em alguns lugares que outros. E é disso que se trata. Tentar identificar se o "mito" ocorre com frequência relativa maior por aqui que nos outros lugares... ou as vezes em alguma região da Espanha. Sempre comparando "laranja com laranja". Esse primeiro mito não é necessário ir muito longe para comprová-lo. Não são necessárias estatísticas. Os próprios espanhóis admitem.

Aprender inglês é uma coisa relativamente nova para eles. Em muitas escolas, ao contrário do Brasil, a língua estrangeira era o francês até a década de 60. Mesmo entrando no currículo básico escolar a partir de então, o ensino do inglês sofre muitas críticas de especialistas, sendo as mais frequentes as de que se inicia tarde (antes aos 10 anos e recentemente aos 6) e de que apesar de passar 10 anos da vida escolar tendo 3 ou 4 horas semanais de aulas, saem da escola sem saber se expressar corretamente, e muito menos, fluentemente. Ou seja, o método de ensino e principalmente os professores são muito criticados.

Junta-se a isso os "maus" exemplos (nesse sentido) que abundam na elite política e empresarial: é uma tristeza ouvir uma entrevista de um representante destas classes em inglês, incluido aí o atual presidente do governo, Jose Luis Zapatero. Isso, segundo os próprios espanhóis, tem consequências políticas graves, pois numa reunião entre vários países em que o inglês é a língua oficial a Espanha é deixada de lado, pois seu representante maior não consegue se comunicar e participar das conversas.

É verdade que mesmo que aprendam o idioma, os espanhóis tem um problema fonético prático: os sons de algumas letras são distintos em relação ao inglês. As vezes, apesar de gramaticalmente correto, é esquisito ouvi-los falando com um sotaque muito carregado (assim como os italianos e indianos). Como fazê-los entender que o "Y" em inglês não tem o som de "DJ", que o "Z" não tem som de "Ç" com a língua entre os dentes e que o "L" também é diferente, sem falar no "V" que não tem som de "B". Foi assim que eles falaram a vida inteira. Mudar não é tão simples, ainda mais num país onde se valoriza falar as palavras estrangeiras com sotaque local (por exemplo, a banda irlandesa U2 (U-two) se torna U-Dos).

Pra piorar as coisas, por aqui os programas de televisão em inglês são dublados (mesmo nos canais de TV a cabo), assim como os filmes no cinema. Em Madrid, por exemplo, existem uns 4 cinemas que exibem versão original. Juntando a deficiência (ou até mesmo ausência) de estudo da língua quando jovem com a falta de familiaridade no decorrer da vida, a bagunça está feita.

Muitas empresas espanholas tem presença internacional (e até global) - Repsol, Santander, BBVA, Telefonica, Zara entre muitas outras - e fica muito claro o quanto essa deficiência atrapalha na hora de comunicar-se. Muitas vezes as reuniões se tornam improdutivas quando a língua dos participantes não é a mesma e a comunicação é em inglês. Frequentemente as pessoas não se entendem e o resultado são reuniões demoradas, às vezes cômicas.

Por último, mas não menos importante, ainda existe uma parcela relevante da população que acredita que não há problema nisso, pois, segundo eles, também existem muitos povos (incluindo americanos e ingleses) que não falam espanhol, e que o espanhol é a 3ª língua mais falada do mundo. Ou seja, se eles falarem espanhol no estrangeiro, os outros tem a obrigação de entender.

O resultado se pode ver claramente na última pesquisa Eurobarometro, realizada em 2006: apenas 27% dos espanholes falam inglês, estando a Espanha em último colocado da União Européia. Não precisa ir muito longe pra ver que em países como Holanda, Alemanha e Suiça a situação é beeem diferente. Há quem diga que até mesmo os 27% estão inflacionados, pois apenas cerca de 5% conseguem se expressar com alguma fluência. Ou seja, comparando "laranja com laranja" (não adianta comparar com o Brasil, certamente ficaríamos atrás), a foto não é nada boa.

Perspectivas de melhora para o futuro? Apesar de todos os fatores jogando contra, parece que sim. Primeiro pelas necessidades criadas pela globalização, falar inglês se tornou essencial, ainda mais estando tão próximos da Inglaterra (os ingleses não vão falar espanhol nem a pau). Há um intercâmbio muito forte com a terra da Rainha. Cada vez mais jovens vão até lá (e ultimamente também à Irlanda) para complementar seus estudos, trabalhar e de quebra aprender o idioma. No ensino básico esta língua tem muito mais peso que alguns anos atrás. Aprendendo desde jovens seguramente falarão muito melhor que as gerações anteriores. Nas empresas maiores se observa também maior incentivo e demanda por aulas, além de maior intercâmbio com países de língua inglesa (tanto enviando como recebendo funcionários). E, por último, está sendo incentivada a criação de escolas bilingues, tanto privadas como públicas.

Fica a dúvida de como será no futuro. Mas o fato é que no presente os internautas continuam se divertindo com os vídeos de personalidades espanholas falando inglês, como Zapatero, Aznar (ex-presidente do governo) e o ex-ditador Franco.

miércoles, 19 de agosto de 2009

Farofa...

Na praia, no parque, no jogo de futebol, no show de música. É muito comum ver os espanhóis comendo sanduíches trazidos de casa, fazendo a famosa farofa. Por aqui esse tipo de farofa, mais "clean", não tem uma conotação tão negativa e é amplamente aceito.

Tal observação foi confirmada pela recente pesquisa publicada no jornal "20 minutos". Cerca de 70% dos entrevistados dizem que levam um sanduíche (bocadillo) pra praia e outros eventos. Dentre os "farofeiros", o preferido é o de jamón com tomate (29%) e o de tortilla de patatas (16%). Peraí, os caras comem pão com tortilla? Claro! E também comem pão com lula a dorê (bocadillo de calamares), com atum e pimentão etc. Aliás, um dos sucessos em Madrid é uma "lanchonete" chamada "100 montaditos", tanto pela quantidade (mais de 100 opções de mini sanduíches salgados e doces), como pela qualidade e preço (cada um sai por mais ou menos 1 euro). Da estranheza no início, confesso que passei a fã incondicional de todos os tipos de bocadillos.

Meada popular

Solidariedade é tudo nessa vida. Girona é uma cidadezinha perto de Barcelona (os voos da RyanAir descem em Girona, e não em Barça). Olha só o que aconteceu por lá: dois cidadãos foram pegos com a mangueira na mão mijando em local público. As autoridades locais resolveram impor uma multa de 750 euros aos mijões, mas não contavam com a reação de solidariedade de seus amigos e dos simpatizantes da mijadinha na rua depois da balada. Estes organizaram uma mijada popular, ou seja, marcaram um horário para todos saírem a rua e mijarem ao mesmo tempo. Fenomenal!

O povo unido jamais será vencido. Veja mais aqui.

martes, 18 de agosto de 2009

I don't give a fuck...

Depois de fazer 2 anos de aulas de espanhol você acha que seu nível é avançado e pode se comunicar muito bem. Ledo engano... bastou uma semana e algumas reuniões por aqui pra ver que eu iria pastar bastante até chegar a um nível aceitável.


Enfim, com o passar do tempo fui aprendendo várias expressões tipicamente espanholas e melhorando meu vocabulário. Umas das primeiras que aprendi foi "me importa un pimiento". Meu chefe mandou uma dessa em uma reunião, me explicando depois que é o mesmo que "me importa muito pouco". OK, internalizei-a. Poucos dias depois, uma colega de trabalho disse uma parecida: "hazlo como quieras, pues eso me importa un comino". Perguntei a ela se isso significava que não tinha importância nenhuma, recebendo uma resposta positiva. OK, internalizei-a. Passa o tempo, reunião com o chefe, repassando as prioridades. Pergunto: "y eso, que prioridad tiene?". E ele: "eso me importa un huevo" e logo passamos a outros temas. "Agora sim, não preciso nem perguntar", pensei. Um pimentão, um cominho e um ovo valem a mesma coisa, isso não tem prioridade nenhuma. E coloquei tal item lá embaixo na lista de coisas a fazer. Um dia depois recebo um email perguntando se aquela tarefa (classificada mentalmente com o valor de um ovo) já havia sido feita, pois ele queria ver-la urgentemente. Caiu a ficha. Imaginando o mal entendido, fui explicar ao chefe, virando motivo de piada... Por fim ele me explicou que isso significava exatamente o contrário. E que na linha do pimiento e do comino ainda há o "bledo" (uma plantinha).

Moral da história: comunicar-se bem em uma língua que não é a sua leva tempo e dedicação, além de vários mal entendidos. E, pelo menos na Espanha, um ovo vale muito mais que um pimentão.

Os dez mais influentes


A boa revista "Actualidad Económica" publicou este mês o ranking das pessoas mais influentes na Espanha. A metodologia é simples: através de seu site web as pessoas deveriam escolher as 10 mais influentes; a primeira receberia 10 pontos, a segunda 9 pontos e assim sucessivamente.

E o resultado foi:

1º) Emilio Botín - presidente do Grupo Santander

2º) José Luis Rodrigues Zapatero - presidente do governo da Espanha

3º) Mariano Rajoy - líder do partido de oposição (PP)

4º) Florentino Pérez - empresário e presidente do Real Madrid

5º) Maria Teresa Fernández de la Vega - primeira vice-presidente da Espanha

6º) Esperanza Aguirre - governadora da comunidade de Madrid

7º) Amancio Ortega - dono da Zara, entre outras

8º) Rafael Nadal - tenista

9º) Pedro J. Ramirez - diretor do jornal El Mundo

10º) Francisco González - presidente do BBVA

Estranho o presidente do país não ser a pessoa mais influente, mas se considerarmos a crise econômica (principalmente o desemprego) e o quanto o "povo" o está considerando incapaz de lidar com ela, é coerente. Além disso, apesar da crise, a empresa de Botín ascende como um dos maiores e mais fortes bancos do mundo, o que colaborou ainda mais para sua imagem de mago das finanças. O bom desempenho dos bancos espanhóis também se reflete na escolha do presidente do 2º maior banco do país, o BBVA, como o 10º mais influente.

Como o conceito de "influente" pode ser subjetivo, a aparição de Rafa Nadal não assusta. O "líder" da "armada" espanhola dificilmente resolverá a crise econômica e política, mas colocou novamente o tênis na primeira página dos jornais, sendo um dos motivos de orgulho e confiança nacional. Fale mal de Nadal por aqui e você entenderá o "poder" do garoto.


Florentino Perez, apesar de figurar entre os 20 nos últimos 4 anos, com certeza teve uma ajudinha de suas contratações galáticas Kaká e Cristiano Ronaldo. Amancio Ortega é o dono da Inditex, cuja marca mais conhecida é a Zara. É a pessoa mais rica da Espanha e a 10ª do mundo (tem meros 18 bilhões de dólares), batendo de longe a Emílio Botin. Uma das coisas curiosas de sua vida é que seu segundo casamento foi com uma funcionária de uma de suas lojas.

Casillas e Luis Aragonés, impulsionados em 2008 pelo título da Eurocopa, desapareceram dos 100 mais em 2009.

Como seria este ranking no Brasil? Dificil prever. Com certeza Lula seria o primeiro. O resto... bom, depende do momento. Depois do escândalo dos travestis com Ronaldo Fenônemo, "o" André Luis certamente figuraria entre os primeiros. Depois do título da Copa do Brasil, o mesmo Fenômeno estaria nas cabeças. E assim vai...

Apostas?

lunes, 17 de agosto de 2009

¡A mi me gusta, tío!

Aos que gostam de blogs de economia recomendo o blog do Manuel Romera: http://blogs.expansion.com/blogs/web/romera.html
Uma visão coerente e consistente sobre os temas econômicos mais importantes na Espanha e no mundo, sem se deixar levar por otimismos ou pessimismos infundados.

Direto do mundial de atletismo

É ouro!!! Marta Dominguez, primeira medalha espanhola no mundial de atletismo - nos 3.000 metros com obstáculos. A Espanha não ganhava um ouro desde 1999!!! Veja mais aqui.

¡Acabou em paella!

A punição da FIA a Renault acabou em paella: multa de 50.000 dólares e permissão para que a equipe corra o GP da Europa, em Valência. A venda de ingressos não é das melhores, apesar de ter sido impulsionada pela notícia de que Schummy correria (50% segundo estimativas da organizadora). Impossível saber se a decisão teve relação direta com as dificuldades comerciais, mas do jeito que Alonso é unanimidade por aqui é bem possível que as vendas aumentem consideravelmente. Em relação ao ano passado, o número de ingressos postos a venda diminuiu de 110.000 a 70.000, sendo que em 2008 tivemos arquibancadas cheias. Este ano, até dia 4 de agosto, foram vendidas cerca de 40 mil ingressos (fonte: Marca.es). Outro sinal de que até agora as coisas não vão tão bem é a taxa de ocupação dos hotéis: em 2008, hotéis lotados e preços até 3x maiores que as temporadas normais. Em 2009, vagas sobrando e promoções.

Certamente a Valmor Sports, organizadora do evento, está comemorando a decisão da FIA.

domingo, 16 de agosto de 2009

Esclarecedor...

"Esposas" em espanhol, significa "algemas" em português.

sábado, 15 de agosto de 2009

Picaretagem a espanhola


Picaretagem não é privilégio dos habitantes de Bananópolis (como diria um amigo meu). Aqui na Espanha também se podem encontrar picaretices das grandes, algumas dentro e outras fora da lei.

Na categoria das que estão teoricamente dentro da lei estão os serviços de informação de localização de blitz policiais pelas ruas de Madrid. Ao sair bêbado da balada, o cidadão envia um SMS a uma central solicitando a localização das blitz entre um ponto e outro. Poucos minutos depois recebe a resposta em seu celular. E segue tranquilo (ou não) e breaco dirigindo seu carro até sua casa, desviando dos pontos de controle. O dono da empresa garante que não há problema algum e a intenção é que as pessoas, caso não estejam aptas a dirigir pelo nível alcólico no sangue, podem se dirigir às blitz e solicitar apoios aos policiais. Santa cara de pau! Veja mais em http://www.ondacero.es/OndaCero/noticia/servicio-sms-avisa-los-controles-alcoholemia-Madrid/5752030/ws

Também muito picareta, o "servicio de coartadas" é fantástico. É um site especializado em enganar. Pra variar, foi uma idéia copiada de um serviço norte americano.
Precisa dar uma desculpa por ter faltado ao trabalho? Quer dar uma escapada com a amante no final de semana? Não se preocupe que o serviço de coartadas cuida de tudo. Documentos, passagens, certificados de enfermidades, convites de congressos, lembrancinhas de cidades que teoricamente você visitou, tudo para que a mentira fique a mais crível possível.
E se você acha que este é um serviço que a maioria esmagadora da clientela é masculina, pasme: 50% dos clientes são mulheres.
O dono garante que tudo é feito dentro da lei e que as enganções existem com ou sem o serviço. Eles somente facilitam as coisas...Confira: www.serviciodecoartadas.com

Na categoria das ilegais, uma muito famosa por ai no Brasil: o boa noite cinderela (beso del sueño, por aqui). Duas mulheres foram presas (uma paraguaia e outra equatoriana) por matarem dois homens com doses excessivas de substâncias que colocaram em suas bebidas. Para garantir que a vítima não ia acordar, elas entuchavam drogas na bebida, sem ter a menor idéia se tal quantidade podia ser letal ou não.

Vai, Espanha!

jueves, 13 de agosto de 2009

Um país, várias línguas - A nova lei de educação catalã



É um pouco estranho para nós brasileiros imaginar viver em um país em que se falam oficialmente várias línguas e que em alguns cantos existem pessoas que não conseguem falar a língua oficial do país (poucos, é verdade). Esse é o caso da España. Atualmente são 17 comunidades autonomas (+ 2 cidades autonomas - Ceuta e Melilla), tendo o castellano (conhecido também como "espanhol") como língua principal e mais outras linguas co-oficiais: Catalão, Vasco (Euskera), Valenciano, Gallego e o Aranés. Mas ainda podemos encontrar outras línguas que não gozam do status "oficial" (por exemplo, o asturiano e o cantabro).

Normalmente não há grandes problemas nisso, existe uma convivência "pacífica" entre as línguas. Mas uma lei recentemente aprovada da comunidade da Cataluña vem gerando muita polemica e principalmente críticas. Até hoje, os pequerruchos catalães tinham a liberdade de escolher em qual língua receber sua educação fundamental, pois há uma divisão entre os que procedem de famílias que falam o castellano e os que falam catalão em casa. Mas, segundo a nova lei, o idioma oficial será o catalão, estando relegado o castellano ao décimo plano, inclusive atrás de línguas estrangeiras como o ingles e o frances. Antes os pais de alunos podiam escolher na ficha de inscrição de seus filhos na educaçao básica qual língua deveria ser utilizada. Essa opção foi suprimida. Os que quiserem aprender em castellano somento poderão faze-lo durante um ano (aos 6 anos) e de forma "individualizada" (seja lá o que isso signifique). Nos outros anos seram dedicado no máximo 2 horas de aula por semana ao idioma da pátria-mãe.


Apesar de aprovada a lei, este ponto em específico causou enorme reação em todos os lados, inclusive de políticos da Cataluña. Não consegui encontrar um só artigo defendendo tal lei. Por outro lado os que a criticam transbordam nos maiores veículos de comunicação. O principal impacto disso, dizem, é que a próxima geração não será bilingue, e se criará mais um fator de diferenciação entre as pessoas desta comunidade e das outras (o que se tem acentuado ultimamente), prejudicando a unidade da nação. Além disso, infringe o direito a liberdade de se escolher em qual língua alfabetizar seu próprio filho, garantido pelas leis federais.

Dentro da lógica nacionalista, faz sentido. E pelo que parece o governo federal fica cada vez mais de mãos atadas diante desse avanço sutil mas constante dos nacionalistas catalães. Isso porque, como necessita de seu apoio para ganhar eleições e votos no legislativo, acaba sendo complacente com leis desse tipo. No futuro isso pode resultar em que a frase que aparece numa faixa da torcida do Barça ("Catalunya no es España" - em uma das fotos que adorna as paredes do museu do clube) seja cada vez mais verdadeira.


Um último comentário, mais "light", sobre o catalão. Se realmente se mantiver esta lei por muito tempo, provavelmente você terá que aprende-lo para visitar Barcelona ou as boas praias da Costa Brava (de quebra poderá ir esquiar em Andorra falando o idioma local). Mas não se preocupe, é muito fácil. As palavras se dividem em 2 classes:

a) as que tiveram grande influência do nosso querido e falecido Mussum (ele mesmo, o dos Trapalhões). Diz a lenda que os filmes como "Os trapalhões e o rei do futebol" fizeram tanto sucesso por lá que algumas palavras de seu vocabulário foram incorporadas ao nativo. Vejam só os exemplos (portugues -> espanhol -> catalão):

- formulários -> formularios -> formularis
- anúncios -> anuncios -> anuncis

b) as que se escrevem exatamente igual ao espanhol, exceto pelo "N" final. Exemplos
- estação -> estación -> estació
- tradução -> traducción -> traducció


Cacildis!

miércoles, 12 de agosto de 2009

Relevância vs Orgulho Nacional - A crise da Salsinha


Precedentes: a Ilha de Perejil (ou Leila, em árabe) é desabitada e tem 1,5 Km quadrados de superfície. Não tem petróleo, gás, ouro, prata, ferro... Nada.

"Em julho de 2002, o governo do Marrocos mandou 12 soldados para uma ilha minúscula chamada Leila, distante algumas centenas de metros de sua costa, no estreito de Gibraltar, e fincou sua bandeira lá. A ilha é desabitada, exceto por algumas cabras, e tudo que viceja por lá é salsinha silvestre, daí seu nome em espanhol, Perejil. Mas sua soberania era disputada havia muito tempo entre Marrocos e Espanha, e o governo espanhol reagiu com vigor à "agressão" marroquina. Dentro de poucas semanas, 75 soldados espanhóis foram transportados de avião para a ilha. Eles arrancaram a bandeira do Marrocos, hastearam duas bandeiras espanholas e mandaram os marroquinos de volta para casa. O governo do Marrocos denunciou o 'ato de guerra' e organizou comícios em que centenas de jovens gritavam 'nossas almas e nosso sangue sao sacrificios a ti, Leila!'. A Espanha manteve seus helicópteros militares pairando sobre a ilha e seus vasos de guerra ao largo da costa do Marrocos. De longe, a coisa toda parecia uma ópera cômica. Mas, por absurdo que pudesse parecer, alguém teria que fazer os dois países se acalmarem."
(fonte: O mundo pós americano. Autor: Fareed Zakaria - a propósito, o livro é muito bom)

Lendo essa passagem sem conhecer o histórico de conflitos entre os dois países, dá vontade de rir. Como pode a Espanha, um país de primeiro mundo e a 9a economia do planeta se meter em tal "picuinha"?

Analisando os últimos 100 anos de história espanhola encontramos diversos episódios de atritos com o Marrocos, mais ou menos sérios. A principal contestação dos marroquinos é em relação a Ceuta e Melilla, que são cidades autonomas espanholas na África desde 1668, a partir de um tratado entre Espanha e Portugal(!!!). Além disso, até pouco tempo outra parte de seu território, o Sahara Ocidental, era de controle espanhol.

É verdade que a ilha de Perejil (ou Leila) tem uma importância economica inexistente, mas os governos se justificam dizendo que a pequena ilha teve importancia estratégica para "controle" do estreito de Gibraltar no passado e por isso não deve ser ocupada por ninguém, não alterarando o "equilíbrio de forças na região", já que nunca chegaram a um acordo sobre a mesma. Mas com certeza o orgulho ferido e a vontade de não abrir precedentes jogaram um papel importante nesta situação. É importante mostrar quem é que manda e que decisões unilaterais não serão toleradas. Nesse caso, decisões intempestivas são muito prováveis, tudo para defender a soberania nacional. Ainda mais quando a opinião pública pressiona o governo: na época uma pequisa do jornal espanhol "El Mundo" mostrou que 66% dos espanhóis apoiavam a intervenção militar.

Talvez o mais sensato fosse uma saída diplomática. Mas enfim, nem sempre o mais sensato é possível ou desejado. E nem sempre os dois lados são sensatos. Lembram da estatização das refinarias de gás de empresas estrangeiras na Bolívia? Com certeza no Brasil tivemos partidários de invadir a Bolívia, não?

Concluindo, não sou analista de política internacional nem entendo muito do assunto. Mas neste caso as coisas são muito claras. Sou partidário da análise caso a caso. No caso de Perejil, se fosse o governo espanhol, a deixaria com o Marrocos por dois motivos:
1) não serve para nada, só para gerar conflitos. A Espanha tem mais com o que se preocupar
2) não abriria precedentes para nada. Duvido que depois de receber esta ilhota o governo marroquino tentaria invadir Ceuta ou investiria seu grandioso poderio militar em um ataque surpresa a Madrid. O Marrocos é governado por um rei no estilo que tem poderes para mandar e desmandar. Ou seja, está mais do que claro que a parte sensata deveria ser a España. Realmente, NÃO PRECISAVA!!!

Esta é uma passagem interessante da história da Espanha e um exemplo de como transformar uma questão totalmente irrelevante em um conflito diplomático grave.

martes, 11 de agosto de 2009

Enchendo a pança em Madrid - parte I



Uma coisa não se pode negar: comer em Madrid é mais que uma refeição, é uma experiencia gastronomica. É impressionante a quantidade e variedade de bons restaurantes que se encontra por aqui. É verdade que em termos de número os bares (de tapas, copas etc.) superam os restaurantes (andando na rua parece que há um bar para cada madrileño). Bom, em um próximo post pretendo tratar do tema Gastronomia na España, que dá muito pano pra manga. O objetivo deste é iniciar uma longa lista de sugestões de bons lugares para se comer bem em Madrid, pagando pouco...ou nem tanto.

Difícil escolher um pra começar. Então melhor começar com um dos que mais vezes fui desde que cheguei a Madrid: a Casa de Valencia. O grande atrativo desta casa é um dos pratos espanhóis mais conhecidos pelo mundo afora, a Paella! Especialmente nos restaurantes mais baratos do centro voce encontrará milhares de tipos de paella, mas não são das melhores...já a Casa de Valencia foi escolhida há alguns anos como a melhor paella da España. Não é fraco não.

A paella original é a valenciana, originada na zona rural de Valencia entre os séculos XV e XVI. A idéia era cozinhar lentamente arroz, açafrao, azeite, carne de aves ou coelho e as verduras que estivessem a mão. Depois surgiram a paella marinera (com frutos do mar) e a paella mixta. Além destas, na Casa de Valencia pode-se experimentar o famoso "arroz negro", que "nada" mais é do que arroz com lula em rodelas cozinhados em sua tinta.

Para não perder a viagem, pode-se começar com deliciosas entradas, apesar de que o prato principal já é suficiente para matar fome de qualquer tamanho. Queijo manchego, morcilla de burgos, patatas bravas (com molho picante), jamón...enfim, tem pra todos os gostos. Caem muito bem acompanhados de um bom vinho tinto. Os da região de La Rioja são muito bons, mas pode-se pedir o vinho da casa que também será bom e por um preço razoável (a garrafa). Ah, de couvert costumam vir empanadas de atum e azeitonas.

Como prato principal, ela, a Paella. Só é possível pedir para no mínimo duas pessoas. O garçom traz a paellera pelando, soltando vapor, para que o cliente a aprove antes de servi-la. É digna de tirar foto.

Pra terminar, depois de todo este banquete, ainda te sirvem um licor e frutas cristalizadas (destaque para a abóbora, uma delícia). Apesar de não ser dos mais baratos, a Casa de Valencia não chega a ser cara: tudo isso sairia por mais ou menos 35 euros por pessoa. Pra terminar, o endereço: fica no Paseo del Pintor Rosales, 58, perto do Metro Arguelles (linha 4).

Bom apetite!

2 Pesos, 2 Medidas



As vezes ao encarar uma situação diferente da que se está acostumado podemos ser hipócritas. Muitas vezes usando o famoso "dois pesos duas medidas", frequentemente sem muita consciencia de que estamos falando da mesma coisa, que diferem um pouco pela forma e principalmente local de onde ocorrem.

No período em que vivo por aqui já vi isso acontecer algumas vezes, tanto com brasileiros em relação aos espanhóis como vice versa. Um exemplo interessante acontece na "moda" feminina. Se voce for a uma praia espanhola ou até piscina pública, provavelmente encontrará algumas pessoas (de quase todas as idades) fazendo "top less", mas dificilmente usando fio dental. Perguntando por ai por que isso acontece, na lógica local não faz sentido ficar mostrando a bunda na praia ou na piscina (acrescentaria que isso é coisa de brasileira - aliás, os biquinis mais "curtos" por aqui são conhecidos como "brasileños", assim como as depilações mais "cavadas"). OK, a mentalidade é diferente. Não seria incoerente se não fosse comum encontrar nas ruas das grandes cidades mulheres usando calças bastante transparentes e calcinhas....fio dental!!!!
Na praia não pode, mas na cidade com um paninho transparente por cima pode! Sei...

Aliás, falando desses assuntos, um causo. O pessoal por aqui (Europa em geral) é tão desencanado com esse negócio de top less, que já ouvi histórias de gente que levou as fotos das férias na praia com os melões a mostra pra mostrar no trabalho. Claro que o objetivo não era mostrar os seios e sim as fotos das férias. E claro que isso não é comum, mas já aconteceu!

Parece mesmo que os seios não são tanto objeto de obsessão por aqui, mas o mesmo não se pode falar da bunda ("el culo"). Primeiro que esta palavra está muito presente nas conversas do dia a dia ("a tomar por culo") e até nos comerciais de televisão (em um de fraldas - "el culito del bebé"). Segundo que os espanhóis admiram uma boa bunda (¡eso es!), principalmente as fartas das brasileiras (cujo "culo", quando farto, é carinhosamente chamado de "respingón").

PS.: existe, ainda, o culito de pollo, que é aquele pequeno/medio mas empinadinho.

lunes, 10 de agosto de 2009

Consequências da crise


Se no Brasil nosso ilustre presidente disse a quem quisesse ouvir que a crise não passava de uma marolinha, por aqui a crise economica está afetando bastante a vida dos cidadãos. Com origens em certa medida distintas da crise norte americana, a crise na Espanha logo mostrou um de seus efeitos mais cruéis: o desemprego. Juntando fatores estruturais internos com falta de investimentos e liquidez externa, estima-se que o nível de desemprego local pode chegar aos 20% da PEA, nível que não se atingia desde antes do boom da economia espanhola após entrar na zona do Euro.

O efeito ao cotidiano dos espanhóis é claro: é o assunto mais comentado na imprensa faz tempo, os restaurantes fast food aumentam suas vendas enquanto que os outros acumulam perdas, os partidos políticos não param de se acusar na TV, a bolsa caiu para mínimos históricos afugentando os investidores (apesar de no último mês o Ibex35 ter sido o que mais se recuperou na Europa) etc. Mas um deles é especialmente visível: o aumento do número de pessoas vendendo badulaques na rua, pedindo dinheiro e até oferecendo trabalhos de magia com mestres africanos "altamente reconhecidos no mundo". Esta última forma está presente principalmente na saída dos metrôs, onde jovens de origem africana entregam "flyers" promocionando as qualidades dos "professores". Como podem ver pelos exemplo abaixo, eles resolvem de tudo: problemas no amor, trabalho, família etc. Sempre com 100% de garantia de resultados!





Sinceramente não sei se o número de pessoas que usam esses serviçoes aumentou. Imagino que sim, pois quando o mundano não resolve, muitas pessoas apelam para o mágico como último recurso (ou até mesmo o famoso "vai que dá certo" entra em cena). Enfim, cada um acredita no que quiser, isso não é uma crítica aos que agem dessa forma. O triste é ver o crescimento dessa atividade relacionado ao desemprego, ou seja, tanto os professores como os que entregam os papéis na rua são imigrantes tentando sobreviver...

Outro ponto digno de nota é como aumenta o escopo do termo "professor". Agora não mais restrito aos academicos dedicados a ensinar seus conhecimentos aos seus alunos, o termo é utilizado por mestres da magia. Não bastava que os árbitros, principalmente de futebol (professor, foi falta!!), fossem chamados assim. Pobres professores... E o salário ó!!

viernes, 7 de agosto de 2009

Investimentos "alternativos"



Trabalhar no mercado financeiro também pode ter seu lado engraçado e curioso. Em sua maior parte a gestão de ativos é caracterizada por produtos tradicionais como fundos de investimentos / pensão que investem em ações, títulos de dívida e outros fundos. Vez por outra se encontra alguns produtos bastante "inovadores", sendo que alguns mexem com o lado esotérico das pessoas. Vejam por exemplo o fundo abaixo:


O gestor do fundo está convencido de que funciona:
"Henry Weingarten, Managing Director of The Astrology Fund, says that both stock markets and stocks themselves each have individual horoscopes. 'So when you want to make a particular prediction about a country, a stock market, or a stock, you look at their horoscope. For many companies, it’s one of the most important factors.' "

E ainda soltou pérolas tão confusas e inconclusivas como se fossem palavras de Caetano Velloso:
“Jupiter in a prominent position can mean upwards movements are more likely, whereas Saturn can mean the opposite. A strong Neptune can signal confusion in the markets”. Ou seja, pode ser que sim ou pode ser que não. Ou talvez...

Se muitas pessoas utilizam a astrologia, cartas e outros para tomar decisões importantes em sua vida, porque não um gestor utilizá-los para decidir em quais ativos investir. Tem lógica! Agora, acreditar nisso é outra história muuuuuito diferente.

Parece que tal metodologia não tem muito futuro. Um dos gestores que acredita nos astros para investir em mercados foi batido em um experimento por uma criança de 4 anos de idade, que selecionava os ativos aleatoriamente (veja mais em
http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/1235304.stm). Mas se voce não acredita na Astrología na hora de investir, pode escolher o feng shui (é sério, existe!). Esse sim tem resultados garantidos…hehe

Uma linha de produtos de investimento menos "diferente" mais ainda assim não tão convencional é a de compra ativos como obras de arte, direitos autorais etc. Afinal, são ativos e valorizam e desvalorizam como qualquer outro instrumento de mercado, apesar de terem restrições de liquidez e de valoração. Um bom exemplo veio a tona após a morte do mito Michael Jackson. Um fundo de pensões dinamarques (de cerca de 180 bi de euros) investiu nos direitos autorais de "You are not alone", além de outras músicas, e ganha din-din toda vez que se vende um CD com tal música ou a mesma toca na rádio. Outros fundos investiram em artigos mais "exóticos" como o "sombrero" que o Rei usou num show em 1990 ou uma de suas calças pretas com que dançou "Moonwalk".

Para o bem ou para o mal, parece que a criatividade na hora de investir não tem limites...

Tauromaquia - parte I



Que os espanhóis são fascinados com touros, não é novidade. É um dos símbolos do país, presente em todas as partes. Seguramente sobre este tema é possível escrever livros, analisando esta relação de amor-ódio dos espanhóis com o bicho.

Antes de falar sobre as origens de tal relação vou contar um causo que a ilustra bem. Quase todas as cidades espanholas tem uma Plaza de Touros, que quase sempre tem um museu que mostra os grandes toureiros e touradas e peças utilizadas na corrida de touros.

Sevilha não é diferente. Pela cidade encontramos cartazes em bares, restaurantes e lojas homenageando os grandes toureiros da história sevilhana e da Andalucía, assim como uma grande Plaza com um museu muito bem equipado (vale a visita). A história que mais me chamou a atenção foi a do touro miura Islero, de 500 kg. Por volta do ano de 1947, o grande toureiro Manolete (http://es.wikipedia.org/wiki/Manolete) era muito querido na região por suas performances memoráveis. Um belo dia, se encontrou na arena com o dito cujo, que, segundo a lógica, viraria defunto ao final do encontro, provavelmente tendo suas orelhas cortadas em sinal de que o toureiro tinha feito um excelente trabalho.
Não sabendo disso, o touro acabou matando o toureiro com uma cornada fatal, para espanto geral do público. Mais do que espantado, o dono do touro ficou p... da vida, pois era muito amigo do falecido toureiro. Numa reação explosiva, não muito rara por estes lados do planeta, mandou matar não só o touro como toda a sua família, principalmente sua mãe, considerada maldita por ter gerado um touro que cometeu a heresia de matar um dos melhores toureiros da España.

Tal causo é um exemplo da importancia das corridas de touro por aqui, assim como da maneira como se encara uma derrota. O touro está ali para morrer, quem mandou ele assassinar o distinto toureiro. Como não fez o seu trabalho, mereceu virar churrasco de uma forma indigna...
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