Antes de começar a série "Caçadores de Mitos" (claramente plagiando o programa de televisão), quero deixar uma coisa clara: odeio generalizações. Do tipo: o brasileiro é... ou, o espanhol é... tudo depende... depende da região, da idade, do momento histórico... de um monte de coisas... ainda mais se forem feitas baseada em análises superficiais e comparando "laranja com maçã".Claro que há características que são mais frequentes em alguns lugares que outros. E é disso que se trata. Tentar identificar se o "mito" ocorre com frequência relativa maior por aqui que nos outros lugares... ou as vezes em alguma região da Espanha. Sempre comparando "laranja com laranja". Esse primeiro mito não é necessário ir muito longe para comprová-lo. Não são necessárias estatísticas. Os próprios espanhóis admitem.
Aprender inglês é uma coisa relativamente nova para eles. Em muitas escolas, ao contrário do Brasil, a língua estrangeira era o francês até a década de 60. Mesmo entrando no currículo básico escolar a partir de então, o ensino do inglês sofre muitas críticas de especialistas, sendo as mais frequentes as de que se inicia tarde (antes aos 10 anos e recentemente aos 6) e de que apesar de passar 10 anos da vida escolar tendo 3 ou 4 horas semanais de aulas, saem da escola sem saber se expressar corretamente, e muito menos, fluentemente. Ou seja, o método de ensino e principalmente os professores são muito criticados.
Junta-se a isso os "maus" exemplos (nesse sentido) que abundam na elite política e empresarial: é uma tristeza ouvir uma entrevista de um representante destas classes em inglês, incluido aí o atual presidente do governo, Jose Luis Zapatero. Isso, segundo os próprios espanhóis, tem consequências políticas graves, pois numa reunião entre vários países em que o inglês é a língua oficial a Espanha é deixada de lado, pois seu representante maior não consegue se comunicar e participar das conversas.
É verdade que mesmo que aprendam o idioma, os espanhóis tem um problema fonético prático: os sons de algumas letras são distintos em relação ao inglês. As vezes, apesar de gramaticalmente correto, é esquisito ouvi-los falando com um sotaque muito carregado (assim como os italianos e indianos). Como fazê-los entender que o "Y" em inglês não tem o som de "DJ", que o "Z" não tem som de "Ç" com a língua entre os dentes e que o "L" também é diferente, sem falar no "V" que não tem som de "B". Foi assim que eles falaram a vida inteira. Mudar não é tão simples, ainda mais num país onde se valoriza falar as palavras estrangeiras com sotaque local (por exemplo, a banda irlandesa U2 (U-two) se torna U-Dos).
Pra piorar as coisas, por aqui os programas de televisão em inglês são dublados (mesmo nos canais de TV a cabo), assim como os filmes no cinema. Em Madrid, por exemplo, existem uns 4 cinemas que exibem versão original. Juntando a deficiência (ou até mesmo ausência) de estudo da língua quando jovem com a falta de familiaridade no decorrer da vida, a bagunça está feita.
Muitas empresas espanholas tem presença internacional (e até global) - Repsol, Santander, BBVA, Telefonica, Zara entre muitas outras - e fica muito claro o quanto essa deficiência atrapalha na hora de comunicar-se. Muitas vezes as reuniões se tornam improdutivas quando a língua dos participantes não é a mesma e a comunicação é em inglês. Frequentemente as pessoas não se entendem e o resultado são reuniões demoradas, às vezes cômicas.
Por último, mas não menos importante, ainda existe uma parcela relevante da população que acredita que não há problema nisso, pois, segundo eles, também existem muitos povos (incluindo americanos e ingleses) que não falam espanhol, e que o espanhol é a 3ª língua mais falada do mundo. Ou seja, se eles falarem espanhol no estrangeiro, os outros tem a obrigação de entender.
O resultado se pode ver claramente na última pesquisa Eurobarometro, realizada em 2006: apenas 27% dos espanholes falam inglês, estando a Espanha em último colocado da União Européia. Não precisa ir muito longe pra ver que em países como Holanda, Alemanha e Suiça a situação é beeem diferente. Há quem diga que até mesmo os 27% estão inflacionados, pois apenas cerca de 5% conseguem se expressar com alguma fluência. Ou seja, comparando "laranja com laranja" (não adianta comparar com o Brasil, certamente ficaríamos atrás), a foto não é nada boa.
Perspectivas de melhora para o futuro? Apesar de todos os fatores jogando contra, parece que sim. Primeiro pelas necessidades criadas pela globalização, falar inglês se tornou essencial, ainda mais estando tão próximos da Inglaterra (os ingleses não vão falar espanhol nem a pau). Há um intercâmbio muito forte com a terra da Rainha. Cada vez mais jovens vão até lá (e ultimamente também à Irlanda) para complementar seus estudos, trabalhar e de quebra aprender o idioma. No ensino básico esta língua tem muito mais peso que alguns anos atrás. Aprendendo desde jovens seguramente falarão muito melhor que as gerações anteriores. Nas empresas maiores se observa também maior incentivo e demanda por aulas, além de maior intercâmbio com países de língua inglesa (tanto enviando como recebendo funcionários). E, por último, está sendo incentivada a criação de escolas bilingues, tanto privadas como públicas.
Fica a dúvida de como será no futuro. Mas o fato é que no presente os internautas continuam se divertindo com os vídeos de personalidades espanholas falando inglês, como Zapatero, Aznar (ex-presidente do governo) e o ex-ditador Franco.
"O resultado se traduze no resultado da última pesquisa Eurobarometro, realizada em 2006: apenas 27% dos espanholes falam inglês"
ResponderEliminarEsquecendo o português nessa também? haha