miércoles, 12 de agosto de 2009

Relevância vs Orgulho Nacional - A crise da Salsinha


Precedentes: a Ilha de Perejil (ou Leila, em árabe) é desabitada e tem 1,5 Km quadrados de superfície. Não tem petróleo, gás, ouro, prata, ferro... Nada.

"Em julho de 2002, o governo do Marrocos mandou 12 soldados para uma ilha minúscula chamada Leila, distante algumas centenas de metros de sua costa, no estreito de Gibraltar, e fincou sua bandeira lá. A ilha é desabitada, exceto por algumas cabras, e tudo que viceja por lá é salsinha silvestre, daí seu nome em espanhol, Perejil. Mas sua soberania era disputada havia muito tempo entre Marrocos e Espanha, e o governo espanhol reagiu com vigor à "agressão" marroquina. Dentro de poucas semanas, 75 soldados espanhóis foram transportados de avião para a ilha. Eles arrancaram a bandeira do Marrocos, hastearam duas bandeiras espanholas e mandaram os marroquinos de volta para casa. O governo do Marrocos denunciou o 'ato de guerra' e organizou comícios em que centenas de jovens gritavam 'nossas almas e nosso sangue sao sacrificios a ti, Leila!'. A Espanha manteve seus helicópteros militares pairando sobre a ilha e seus vasos de guerra ao largo da costa do Marrocos. De longe, a coisa toda parecia uma ópera cômica. Mas, por absurdo que pudesse parecer, alguém teria que fazer os dois países se acalmarem."
(fonte: O mundo pós americano. Autor: Fareed Zakaria - a propósito, o livro é muito bom)

Lendo essa passagem sem conhecer o histórico de conflitos entre os dois países, dá vontade de rir. Como pode a Espanha, um país de primeiro mundo e a 9a economia do planeta se meter em tal "picuinha"?

Analisando os últimos 100 anos de história espanhola encontramos diversos episódios de atritos com o Marrocos, mais ou menos sérios. A principal contestação dos marroquinos é em relação a Ceuta e Melilla, que são cidades autonomas espanholas na África desde 1668, a partir de um tratado entre Espanha e Portugal(!!!). Além disso, até pouco tempo outra parte de seu território, o Sahara Ocidental, era de controle espanhol.

É verdade que a ilha de Perejil (ou Leila) tem uma importância economica inexistente, mas os governos se justificam dizendo que a pequena ilha teve importancia estratégica para "controle" do estreito de Gibraltar no passado e por isso não deve ser ocupada por ninguém, não alterarando o "equilíbrio de forças na região", já que nunca chegaram a um acordo sobre a mesma. Mas com certeza o orgulho ferido e a vontade de não abrir precedentes jogaram um papel importante nesta situação. É importante mostrar quem é que manda e que decisões unilaterais não serão toleradas. Nesse caso, decisões intempestivas são muito prováveis, tudo para defender a soberania nacional. Ainda mais quando a opinião pública pressiona o governo: na época uma pequisa do jornal espanhol "El Mundo" mostrou que 66% dos espanhóis apoiavam a intervenção militar.

Talvez o mais sensato fosse uma saída diplomática. Mas enfim, nem sempre o mais sensato é possível ou desejado. E nem sempre os dois lados são sensatos. Lembram da estatização das refinarias de gás de empresas estrangeiras na Bolívia? Com certeza no Brasil tivemos partidários de invadir a Bolívia, não?

Concluindo, não sou analista de política internacional nem entendo muito do assunto. Mas neste caso as coisas são muito claras. Sou partidário da análise caso a caso. No caso de Perejil, se fosse o governo espanhol, a deixaria com o Marrocos por dois motivos:
1) não serve para nada, só para gerar conflitos. A Espanha tem mais com o que se preocupar
2) não abriria precedentes para nada. Duvido que depois de receber esta ilhota o governo marroquino tentaria invadir Ceuta ou investiria seu grandioso poderio militar em um ataque surpresa a Madrid. O Marrocos é governado por um rei no estilo que tem poderes para mandar e desmandar. Ou seja, está mais do que claro que a parte sensata deveria ser a España. Realmente, NÃO PRECISAVA!!!

Esta é uma passagem interessante da história da Espanha e um exemplo de como transformar uma questão totalmente irrelevante em um conflito diplomático grave.

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